Resumir nove anos em noventa minutos é complicado. Mas foi exatamente o que aconteceu no último sábado às 17 horas no Moisés Lucarelli. Em míseros noventa minutos o América jogaria pelo acesso. Jogaria por sua história, por sua imensa torcida, por uma diretoria séria que finalmente começou a consertar a CAGADA que gestões anteriores fizeram com um clube tão grande. O América jogaria por nós.Começou. A Ponte Preta veio com tudo. Tratou o jogo como se fosse uma final. Como disse Bruno Azevedo, "o que é o dinheiro, hein?". Mas não que a gente possa reclamar. Se precisamos de um ponto, temos que buscá-lo com nossas forças ao invés de esperar que o adversário nos dê. Foi assim o ano inteiro e é assim na vida de qualquer equipe séria de futebol, como o América é.
A Ponte nos prendeu na defesa. Estávamos (o América) nervosos. Estava (eu) nervoso. Pra piorar, Dodô marcou lá no Recife. Em condições normais o Sport JAMAIS perderia para a Portuguesa na Ilha. Mas digo de novo: se não conseguirmos o resultado por nossas ações, não merecemos a ajuda dos outros. Segue o jogo.
Como se não bastasse a minha ansiedade - virei o copo de Coca-Cola gelada num estalar de dedos - o Preto decide que já vivi demais essa vida e que eu mereço um ataque cardíaco. Bola na área americana e o zagueirão, na tentativa de afastar o perigo, carimba o nosso próprio travessão. Seria um dos gols contra mais bonitos da história. OK, morri, voltei. Segue o jogo, e a Ponte ainda jogava melhor. Se o primeiro tempo terminasse empatado já seria lucro, e terminou mesmo. Mas antes, mais um da Lusa na Ilha.
Na volta do intervalo, minha mãe (que acompanhou o jogo inteiro comigo) e eu já havíamos cansado da narração tendenciosa do SporTV. O que foi feito: "mute" na TV e Rádio Itatiaia no talo. Com Ênio Lima, Bruno Azevedo e Thiago Reis na transmissão, três notáveis americanos, não poderíamos falhar. O problema é que a imagem do SporTV chegava BEM depois do som da Itatiaia (coisa de 5 segundos). Dane-se. Abaixei a cabeça e me concentrei no som, aí a cada lance aparentemente importante eu levantava a cabeça pra ver como foi. Melhor que ouvir Rogério Corrêa e sua velada torcida pelo acesso da Portuguesa.
O América voltou melhor, pressionou, brigou. Tomava uns contra-ataques, mas nada tão preocupante quanto o primeiro tempo. Havíamos equilibrado a situação.
Nós (América) não estávamos mais nervosos. Mas eu estava. Fiquei mais ainda quando Sheslon perdeu o que seria o gol da rodada, da vitória, do acesso. Chegou a tirar o goleiro alvinegro da jogada, mas este conseguiu - mérito total dele - fechar o ângulo do nosso lateral.
A cada ataque nosso, a esperança de ouvir o característico "MARCOU! MARCOU! MARCOU!" de Ênio Lima. A cada contra-ataque da Ponte, o medo de ver tudo ir por água abaixo. Mas não tinha como ir, não podia ir. O América é muito grande pra isso. Uma equipe tão unida, tão comprometida e tão talentosa não merece menos que a elite do futebol brasileiro.
A linha defensiva fez bem o seu papel e, nos raros momentos que não fez, agigantou-se Flávio, poderosa muralha americana. Lá no Recife o Sport diminuiu, mas não era motivo de esperança. Todos sabiam que o Sport não empataria, justamente porque não queria empatar.
Entre os 43 e 44 minutos do segundo tempo meus olhos já quase transbordavam. Quando anunciaram que o árbitro deu só um minuto de acréscimo, caiu a primeira lágrima, ainda bem contida. Eu já não olhava mais pra tela, só ouvia a Itatiaia.
E bem na hora em que Ênio Lima gritou "ACABOU", um quase silencioso "... puta que pariu..." acompanhou o choro que veio como um raio. Um choro que já vinha sendo conservado aqui dentro há longos e intermináveis nove anos. Um choro incontrolável de extrema e intensa felicidade. Um choro de agradecimento ao meu pai por ter me apresentado ao maior clube de Minas Gerais. Um choro cujo significado é coisa que só um torcedor do América tem o privilégio de entender.
Todos sabem que o América é um time grande. Quem nega esse fato o faz pra provocar, e eu não só não me importo como gosto que seja assim. Agora o América voltou ao lugar que sempre lhe foi de direito. A preocupação dos rivais é evidente e as piadinhas pra camuflar o medo já começaram. Mas não se envergonhem, atleticanos e cruzeirenses: o medo de vocês é totalmente justificado.
O Coelhão voltou. Contra tudo e contra todos.
E, pra fechar, um vídeo que editei às vésperas do jogo do acesso para a Série B em 2009. A mensagem ainda vale. Assistam. Saibam um pouco do que é "o fel e o mel" de ser americano.
Obrigado.


